“Tudo” (ou “Todo”, no original) é uma peça composta por três atos do dramaturgo argentino Rafael Spregelburd, que é também produtor, diretor, ator, tradutor e, recentemente, foi eleito para a Academia Argentina de Letras. Suas obras ganharam prêmios ao redor do mundo, como o prêmio Tirso de Molina. Os três atos da peça “Tudo” (Burocracia, Negócios e Superstição) abordam temas comuns da sociedade com ironia e sagacidade, sem um fio condutor único e óbvio, os três atos são independentes, mas possuem alguns personagens em comum e a necessidade de questionar a identidade de todos.
Escolhemos para esse projeto de tradução um fragmento do segundo ato, intitulado Negócio, que tem a seguinte indagação como subtítulo: “Por que toda arte vira negócio?”. Neste ato, acontece uma comemoração de Natal na casa de Nelly, em que ela reúne seu ex-marido, Ricardo Del Mónico, seu filho Enzo, seu irmão Fano e seu colega de escritório e affair Omar. Fano traz também sua namorada, Dai Chi, a suposta coreana que diz não saber uma palavra da língua que eles falam. O que era para ser um momento familiar acaba se transformando em uma sucessão de revelações, que têm como papel central os interesses conflitantes dos personagens, alguns deles condenáveis, desvendando a selvageria por trás das tentativas de civilidade.
Spregelburd escreveu “Todo” para o festival de teatro da Alemanha “Digging deep and getting dirty”, em 2009, que celebrava os 20 anos da queda do muro de Berlim. O tema desta mostra articula o que acontecia em diferentes países durante a queda do muro, e Spregelburd foi o único latinoamericano dentre os cinco dramaturgos convidados. Mesmo não acreditando no conceito de pátria, o argentino lançou a seguinte provocação, que centraliza seu país nesse debate: “O que aconteceria se a Argentina lançasse uma mostra de teatro pedindo para que outros países dissessem o que estava acontecendo neles quando aconteceu a derrocada argentina, em 2001, com a falência dos bancos?” (Spregelburd, 2011, p. 10).
Sim, Spregelburd é contestador. Em conversa com o autor por e-mail, ele nos contou sobre a presença de filósofos, que nem desconfiávamos, na sua escrita. Além de Hegel e Lacan, há uma presença constante de Žižek, filósofo esloveno que faz uma leitura hegeliana de Marx. A personagem mais difícil para a tradução, como o autor previu, foi a suposta coreana Dai Chi. Ao mesmo tempo em que se apresenta de forma ambígua, performando uma figura deslocada linguística e culturalmente, também é a narradora onisciente da peça. Dai Chi fala um idioma inventado, uma mescla de diferentes fonemas de países do leste asiático, e para a tradução procuramos em português palavras que soassem bem tanto com o texto original quanto com esses diferentes idiomas, procurando não perder o humor crítico, muitas vezes escatológico. Os outros personagens, apesar de “normais”, também tinham seus desafios: o diálogo na Internet entre Enzo e seu amigo, o pedante artista Fano, o professor Del Mónico, Omar, Nelly… Todos representam diferentes registros de linguagem, que vão desde o chulo, até o internetês, gírias adolescentes e registro extremamente culto. Como diz o título da peça, “Tudo”, aqui entra tudo mesmo: a produção da arte depois da queda do Muro de Berlim e sua mercantilização, globalização, educação filosófica nas escolas, conflitos intergeracionais, vício em Internet, pedofilia, burocracia, divisão entre superar um amor e atraí-lo de volta etc. Com isso, captar todas essas nuances e camadas de complexidade foi um grande desafio de tradução.
Em tempo: a peça “Todo” teve uma montagem no Brasil, sob direção de Guilherme Weber, em 2022.
[Todo – ¿Por qué todo arte deviene negocio? Parte 2]
Rafael Spregelburd
2009
Trad. Ana Lúcia de Paulo Superchinski, Carol Fukuda, Evair Eduardo Souza, Paloma dos Santos Schlemper.¹
Traduzido parcialmente a partir de: SPREGELBURD, Rafael Adrián. Todo. Buenos Aires: Atuel, 2011.
- 1 Ana Lúcia, Carol, Evair e Paloma são discentes do curso de bacharelado em Letras na Universidade Federal do Paraná. Os respectivos e-mails são: ana.paulo@ufpr.br; carolinefukuda@ufpr.br; evaireduardo@ufpr.br; schlemperpaloma@gmail.com.

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